Luiz
Henrique Gurgel - Cida
Laginestra - Regina
Clara
Uma conversa com a pesquisadora e especialista no
ensino da leitura, Carla Coscarelli. Ela é professora e pesquisadora do Ceale
(Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita), da Faculdade de Educação da
Universidade Federal de Minas Gerais. Coscarelli fala de questões importantes
relativas a uma das ações mais delicadas e complexas do trabalho do professor:
o ensino da leitura.
São frequentes as notícias de que muitos alunos
terminam o Ensino Fundamental sem saber ler. Isso realmente acontece?
A linguagem e a leitura são competências que as
pessoas precisam desenvolver. É preciso procurar formas de detectar o problema
e propor ações para solucioná-lo. Às vezes a escola não sabe como lidar com a
leitura. Então, quando eu penso em modelo de leitura, busco integrar uma série
de estudos. Quando se analisa o livro didático, percebe-se que a maioria das
atividades é de localizar a informação, identificar qual é o tema do texto e
dar uma opinião ou sair do texto. Trabalha-se pouco com o léxico, a sintaxe, a
inferência. Aí, quando chegam as avaliações em massa, como do SAEB [Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Básica], ENEM [Exame Nacional do Ensino
Médio], há um buraco enorme. Constata-se o que a escola ensina e as crianças
conseguem se sair bem, por exemplo, localizar informações no texto, dar uma
opinião ou extrapolar ou depreender o tema. Mas nas operações inferenciais, tão
fundamentais na leitura, os estudantes não se dão bem. Isso precisa ser
trabalhado e ainda não foi incorporado pela escola, pelo livro didático. Eu
penso a leitura muito como operação mental, como um processo ativo do leitor,
em que o professor pode interferir e ajudar.
Como o professor lida como esse tipo de problema,
habitualmente?
Quando o professor fala que o menino não sabe ler, ele
não está conseguindo identificar qual é o problema que ele tem. Depois de oito,
dez anos de escola, não é possível que o menino não saiba ler. Ou ninguém fez
nada durante esse tempo todo com ele, ou tem alguma habilidade de leitura que
ele não conseguiu superar e ninguém o ajudou. Existem graus de leitura, graus
de severidade de leitura. Uma hora, alguém tem que se sentar com esse menino e
ensiná-lo, conquistar os pequenos espaços.
Em geral, os professores sabem que ler pode ter vários
significados?
A questão metodológica da leitura é embolada. Não se
tem muita clareza de como é que se propõe uma boa aula de leitura. A aula de
leitura, às vezes, é o professor pedir ao estudante que leia o texto e responda
às questões do livro. Não se planeja atividades para se detectar o problema de
leitura, nem para ajudá-lo a superar a dificuldade. Você precisa pegar na mão,
mostrar, fazer junto, propor situações, servir de ponto de partida. É para dar
soluções para as coisas. O menino, às vezes, não consegue ler porque o
vocabulário atrapalhou, faltou conhecimento O que é que você faz se durante a
leitura encontra uma palavra que não entende? Normalmente, se vai ao
dicionário. Olhar no dicionário não é a única possibilidade. Você pode pensar
um sentido que caiba nesse lugar, inferir, sacar. Se eu não conseguir, vou perguntar
para alguém, dar um jeito, buscar solução. Tem um outro agravante: o ensino de
língua portuguesa. A aula ainda é muito pautada no saber da gramática
tradicional: frase, oração, estrutura de oração e da sintaxe. A escola perde
muito tempo no trabalho metalinguístico e se esquece das estratégias de
leitura. O que eu tenho visto é que não se trabalha a leitura, é como se o
menino aprendesse o tempo inteiro pela experiência. O professor não tem clareza
das habilidades que tem que desenvolver, por onde começar. Quais habilidades o
estudante precisa ter para lidar com os textos narrativos, jornalísticos, o
poético; com o grau de dificuldade dos textos, a sonoridade, a complexidade do
vocabulário e do conteúdo.
E o que mostram as avaliações de leitura?
O resultado das escolas brasileiras no PISA (Programa
Internacional de Avaliação de Estudantes) - é terrível. A avaliação aborda
questões que a escola não trabalha: referência, texto multimodal, relação de
textos diferentes, inferência. São raras as didáticas que extrapolam do texto,
que instigam a fazer inferência com dados de partes diferentes do texto. A
lista do SAEB tem mais de vinte descritores, mas só três ou quatro deles são
contemplados nas atividades dos livros didáticos. É possível fazer um planejamento
e trabalhar a leitura em progressão. Das habilidades mais fáceis, por exemplo,
as narrativas que os estudantes têm muito contato, desde pequenos, nos livros
de literatura para os textos mais complexos, como os argumentativos. Eu gosto
de trabalhar com um conjunto de textos de vários gêneros, contemplando diversas
habilidades. Então, num artigo de opinião, vamos recuperar qual é a tese, quais
são os argumentos, como é que o texto é construído, qual é o argumento contra,
o argumento a favor, a opinião. O que é fato? O que é opinião? São elementos
que a gente precisa identificar e se posicionar diante daquele texto. Outra
possibilidade é ler e comparar várias versões de um mesmo conto, por exemplo, o
Chapeuzinho Vermelho escrito por Charles Perrault , pelos Irmãos Grimm, ou
ainda o Chapeuzinho Amarelo, do Chico Buarque. Eu fico pensando na pesquisa
escolar que envolve leitura, busca, curiosidade. O menino corre atrás de um
tema, mas sem orientação, recorte, foco. Como fazer pesquisa sem uma pergunta
norteadora?
A leitura está presente na formação do professor?
Agora vou assumir a minha culpa. A universidade tem
poucas disciplinas para trabalhar a leitura estritamente. Parte-se do
pressuposto que os alunos que chegam à universidade são leitores maduros, não
precisam desenvolver a leitura. E poucas disciplinas lidam com a leitura do
ponto de vista pedagógico, didático. A universidade tem que rever a formação do
professor que vai trabalhar com leitura, como ensinar leitura, a metodologia.
Porque, às vezes, o professor começa a treinar algumas habilidades que vai cair
naquele teste, em prova. Mas não trabalha aquilo de uma forma interessante, de
modo que o texto ganhe vida, desperte o gosto pela leitura, a curiosidade de
saber mais, a paixão pelos livros. É aí que mora a riqueza. Eu acho que a
escola afoga esses meninos com muito conteúdo e o perguntar vai ficando meio
guardadinho. O professor precisa pôr o menino para pensar, fazer perguntas,
tentar buscar respostas e discutir com o colega, de pensar várias respostas
para a mesma coisa. Não tem o certo, o errado, mas tem o possível e o
impossível, o bem argumentado e o mal argumentado. É preciso deixar de lado a
velha aula expositiva em que o professor fala e os alunos ficam calados.
O que significa ser um bom leitor?
É uma pergunta difícil. Alguns textos são mais comuns
no nosso cotidiano. Não se pode falar que tem que ser bom leitor de tudo:
crônica, artigo de opinião, divulgação científica, texto de revista, jornais,
livros de literatura. Muitos jovens são bons navegadores, mas não são bons
leitores. Eles são bons buscadores de informação, mas quando eles acham a
informação, o processamento daquela informação é muito raso, superficial. Na
hora de ler com um grau de profundidade, fazer inferências, essa habilidade
eles não têm, não conseguem avaliar a própria leitura. Outra coisa importante é
dar um modelo de como é que se lê, fazer leitura oral com os estudantes. Como é
que você lê um poema? Tem menino que lê um poema e lê uma notícia com a mesma
entonação, do mesmo jeito. O professor pode levar para sala de aula um texto
romântico ou um texto agressivo e perguntar para o grupo como fazer a leitura
de cada um desses textos. Como é que é a entonação, a prosódia, a
interpretação? Se você lê todas as personagens com a mesma voz, com a mesma
entonação, não tem graça. O texto fica ruim. Agora, quando você faz aquele
teatro vocal, monta a cor, o figurino, monta o som, você faz um cinema na tua
cabeça. É uma outra coisa.
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